segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

6 de fevereiro de 2012: um dia difícil de esquecer


Sempre me orgulhei de nascer num país onde não havia guerra, de ser filho de uma terra conhecida no mundo inteiro pela alegria. Enquanto tropas americanas invadiam o Haiti, o Afeganistão, o Iraque ou qualquer território, assistia tudo pela televisão, com o conforto e a segurança do meu sofá. Nunca imaginei que um dia estaria do outro lado. Com uma câmera e um microfone, noticiando para os quatro cantos do planeta, a presença de tanques, helicópteros e milhares de oficiais do exército na minha Bahia.

Quando cheguei na Assembléia Legislativa e vi aquele cenário, confesso que a ficha demorou para cair. Custei acreditar que a minha cidade estava completamente tomada, que a coisa era mais séria do que eu pensava. De um lado policiais grevistas, com gritos  e faixas de protesto, do outro, soldados armados até os dentes, protegidos com capacetes e escudos. Alguns colegas me avisaram que o clima estava tenso, mas só deu pra ter uma noção quando tive que me jogar no chão para não ser atingido por balas de borracha.

Bombas de gás lacrimogêneo caíam a poucos metros, jatos de spray de pimenta vinham de todos os lados. Assim que pude levantar, vi o meu cinegrafista com o nariz sangrando. Algum vaso estourou com a pressão dos explosivos. Manifestantes aos berros me mostravam os ferimentos provocados pelos tiros dos oficiais. Hematomas enormes na perna, na barriga e até no pescoço. É amigo, definitivamente estava no meio de uma guerra. Não tinha como negar. O colete a prova de bala me deixou ainda mais angustiado.

Já não conseguia respirar direito, o sol castigava, a cabeça fervia. Aonde chegamos? Aqueles formados para nos proteger, estavam ocupados em confrontos entre eles mesmos. A Assembléia Legislativa, onde deputados deveriam estar debatendo leis em nosso benefício, virou campo de batalha. Covardemente, policiais usavam mulheres e crianças como escudo, na tentativa de impedir uma invasão das tropas no prédio. Mais homens do exército não paravam de chegar. A ordem era cercar tudo, suspender o fornecimento de comida e água para os grevistas. Vencer pela resistência.

Sinceramente, depois do que passei hoje, não tenho cabeça para dizer quem está certo ou errado. Até porque sabemos que tem muita coisa por trás disso. Já falei e volto a repetir, estamos num ano eleitoral, cercado de interesses políticos. Infelizmente, isso é só o começo pela disputa pelo poder. Quem antigamente orquestrava os movimentos, hoje prova do próprio veneno. Sobra para o povo, como sempre usado como massa de manobra, moeda de troca. Quanto custa um voto? Será tão caro assim? É, meu caro, maldito o dia em que descobriram a nossa preciosa Bahia! Militares nas ruas, de duas, uma: é guerra ou ditadura!  
 

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